Escritolicos anónimos

Inscrevi-me num workshop de “Escrita para viagens“, num daqueles momentos de saudosismo por viajar que me assola dia-sim, dia-não. Escrevo ao Filipe. Está no Irão. Combinamos tudo rapidamente. 3 Dias de Abril, em Lisboa. Fechado.

O Filipe (Morato Gomes) recebeu recentemente o prémio de melhor bloguer profissional de viagens. É mais conhecido pelo “Alma de viajante”, o primeiro blog de viagens em Portugal, e por ter feito uma volta ao mundo com a mulher e a filha. Actualmente, é o guia da Nomad no Irão e também publica as suas crónicas no suplemento de viagens do jornal Público – o Fugas.
  Somos 14 (e não 13) à volta de uma mesa rectangular. Estamos numa sala do LX Factory, um lugar onde reina um ambiente aparentemente anárquico e libertino. Gosto. Gosto da arte de rua pintada nas paredes e nas portas. Gosto dos espaços (como a livraria Ler Devagar e a loja de tatuagens). Até gosto da desarrumação e da degradação. Estarei a tornar-me hippie!? 

Não consigo decorar os nomes de todos. Apenas dos mais interventivos; como o Pedro, um amante da fotografia que se levanta às 4 da manhã para subir vulcões e, assim, apanhar a melhor luz; o Afonso, um ex-bancário do ex-BES e escritor, que, do alto dos seus cabelos brancos, faz longas e de calmas intervenções; a Patrícia, uma médica que vai de férias (de comboio!) para Madrid; o João, activista pelas formas sustentáveis de mobilidade urbana e que faz férias de bicicleta com a mulher e os dois filhos; a Vera, uma ex-radialista da RFM; a Marta, jovem de 22 anos que foi fazer voluntariado no Camboja e onde ia sendo raptada para esclavagismo sexual; o Pedro que foi a Tróia de bicicleta com alguns amigos e acabaram em… Casablanca; enfim, um grupo com horas de histórias para contar e … escrever.

Não me sinto num “curso” ou num workshop. Sinto-me numa reunião de alcoólicos anónimos, para viajantes. 
Estou a achar mais interessante a troca de experiências entre todos nós, incluindo as excitantes histórias do Filipe nos diversos “cus de Judas“, do que propriamente o curso. Confesso. 

 A sala está repleta de fotos de uma viajante errante, tal é a diversidade de locais e temas. Há minha frente, estão duas fotos que espicaçam constantemente a minha adrenalina. A foto a preto-e-branco de uma norte-europeia loura que, de alças, olha e sorri para trás, por cima do seu ombro. A outra, de um pescador asiático que, trajado a rigor, pega numa lanterna. Duas fotos impressionantemente expressivas. Mágicas. 

 Dos 3 dias de “curso” retenho apenas coisas que nada têm a ver com escrita: 

– “Deixa-te ir!” e “Why not?”: É quando respondemos “sim!” que aparecem situações imprevistas e as melhores histórias. As que ficam;

– “Cria um estilo teu“: não somos todos iguais, todos valorizamos coisas diferentes;

– “Viver disto“: muito dificilmente alguém consegue. A não ser que conheça alguém, que conheça outro, que conheça o editor de alguma revista;

– “Viajar não é caro. É muito dinheiro.“: há perspectivas para todos os gostos. Há viagens interessantes para todos os bolsos. 

 Dou boleia ao Filipe e deixo-o no aeroporto. “Esta viagem de ida-e-volta para o Porto custou-me 6 euros.” Diz-me. “Isso é quase mais barato do que um bilhete de metro em Lisboa!“, digo-lhe, quase indignado.

Apesar do workshop não ter sido nada do outro mundo, despeço-me dele nas partidas do terminal 1, com a sua frase preferida: “Foi fixe!
Lisboa, 18 de Abril de 2015

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