Abra já a porta! (do avião)

O meu voo de hoje parte às 10:30, “mais coisa, menos coisa”.

O aeroporto de Lisboa deve estar um caos devido à greve dos pilotos da TAP. Por isso mesmo, viajo na Air Europa que, até hoje, nunca me deixou ficar mal.

Vou com tempo. Muito tempo. Nem sequer tenho de me levantar mais cedo. 
Faço a mala de manhã. Apanho o táxi, como em todas as segundas-feiras de manhã. A conversa de hoje é sobre a desnecessária quantidade de táxis que prolifera por Lisboa – “Somos demasiados para tão pouco serviço. Só recados. Só faço recados de 4 Euros.” diz-me o taxista, como quem pede uma gorjeta. 

Entro no aeroporto e … nada. Não há fila nos balcões da TAP, no controlo de segurança, nada. Aqui e ali, lá vejo alguns passageiros a dormir encostados a uma parede e nas desconfortáveis cadeiras de espera. 
Tomo o habitual pequeno-almoço no Harrods – “Um galão e um croassaint misto, se faz favor.” Há minha frente estão dois casais de alemães que, aparentemente, se divertem com a greve. Um jovem alto e louro chega à mesa e diz aos amigos – “Cancelhado“, num tom trombeteiro e despreocupado. Os outros riem-se e encolhem os ombros. 

Decido esperar tranquilamente junto à minha porta de embarque, mesmo ao lado da que parte para o Funchal. 
As hospedeiras pedem para o embarque se fazer por 2 filas. Uma para passageiros com número de lugar atribuído e outra para a lista de espera, de passageiros de outros voos cancelados. O embarque fecha. Os passageiros que não conseguiram viajar estão, naturalmente, frustados e dirigem todo o tipo de impropérios aos hospedeiros que não têm culpa do sucedido, mas que são a cara da TAP neste momento. 

Na minha porta de embarque, que está fechada, dois diligentes hospedeiros da TAP, tentam meter um casal de franceses em qualquer buraquinho para Paris. Conseguem um lugar e gritam de alegria na direcção de alguém que vai ficar muito contente. A senhora francesa modera o contentamento porque o marido ainda está em terra. Largos minutos mais tarde, talvez 15, e depois de telefonema atrás de telefonema, computador atrás de computador, a hospedeira da TAP dá dois gritos de alegria e diz em bom português na direcção do francês – “Consegui, consegui!“. Não creio que o francês tenha percebido a língua, mas percebeu a mensagem. Com toda a certeza.

Depois de dar os dois cartões de embarque ao casal, dirige-se a uma colega e diz aliviada – “São estes momentos que me deixam muito feliz.

 Chega a altura de embarcar no meu voo.
Entro dentro do avião e sento-me à janela. Enquanto olho a chuva que cai neste dia de ventania infernal, o meu coração exalta-se e começa a bater sem controlo. 

Nunca me tinha acontecido. Assusto-me e espero que passe. Regulo o ar condicionado. Nada. Não passa e piora. O embarque está quase terminado e nada.

A hospedeira fecha a porta do avião e o meu coração continua a bater que nem um louco. Porquê, penso. Já andei mais de avião do que de carro. Já viajei em condições climatéricas piores do que estas. Não está calor, nem frio. Porquêêêê…

A porta do avião está fechada. As escadas de acesso retiradas. Os autocarros de transporte já voltaram ao estacionamento. Em breve o avião vai começar a fazer marcha-atrás.
É agora ou nunca.
Levanto-me.

Dirijo-me à hospedeira e digo-lhe – “Abra já a porta do avião que não me estou a sentir bem!

Ela, surpreendida, olha para mim e, depois de consultar o Comandante, abre-a. 

Aeroporto da Portela, 4 de Maio de 2015

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