O9: Uluru

Tenho de apressar o planeamento. Hoje é o dia. Estou a “choca-la” junto à lareira. 

Sydney ficou para trás. 
Serão três dias difíceis por um único motivo: o jet lag. Não há como evitar. Maldito.  No dia em que completo 40 anos e 2 dias, voarei para o misterioso outback australiano. O objectivo é uno: subir o místico rochedo de Uluru. “Não percas tempo aí!“, disse-me alguém. “Tenho de ir!”, respondo eu, mas, na verdade, nem sei bem porquê. Porque, porque, … sim.

Estou no quarto dia de viagem, mas, pelo meu corpo, já terão passado seis. 

Procuro informações sobre o centro vermelho australiano (não, não é o reduto comunista). Não há muito para ver. Areia. Hordas de mosquitos. Sol abrasador. Serpentes. E um gigantesco rochedo alaranjado. 

Tenho em mente passar quatro dias em Uluru – a razão da viagem ao centro australiano, mas há ainda Kings Canyon (um desfiladeiro), Alice Springs (uma cidade de passagem), e pouco mais. O resto é, também com alguém disse, para “encher calendário“.
Se for a Alice ver/ fazer … não sei bem o quê, “perco” dois dias. Não me posso dar a esse luxo. Desfiladeiros e cidades há muitas. Passo. Next.

 Dia 6: Olgas.

O voo da Jetstar partirá de Sydney às 10:30. Chegarei a tempo para visitar as Olgas e a fantástica Walpa Gorge, perto da cidade-miniatura de Ayers Rock.

Para fechar em grande, o sol por-se-à para mim sobre Uluru.
Dia 7: Uluru.

O dia começará antes do nascer do sol. Esperarei pacientemente que ele nasça. Depois, e contra todas as indicações aborígenes, subirei o misterioso rochedo de Uluru. Depois do almoço, correrei para o aeroporto, com destino a …  

Lisboa, 19 de Dezembro de 2015

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Syntagma

Hoje é Domingo. Decido levantar-me mais tarde. Às 8 da manhã. 

O taxista diz-me que vou chegar a horas. Não percebo o que quer dizer. Só lhe disse que queria ir para a famosíssima Praça Syntagma, o berço da revolução falhada do Syriza. Ele não fala inglês e, apesar de saber que eu não percebo grego, vai falando (sozinho). Só percebo ‘Merkl’ e ‘Sarcozy’ de vez em quando. Adivinho o que quererá dizer  Afinal, sem querer e por coincidência, chego mesmo em cima da hora (isto está a tornar-se um hábito) para ver o famosíssimo render da guarda no monumento do soldado desconhecido, mesmo em frente ao Parlamento Helénico (outro símbolo da efémera revolução grega). Aqui, o render da guarda é um teatro para turista ver, tal como em Londres. Não me admiro se um dia cobrarem bilhete. Mas não deixa de ser giro ver homens de collants brancos, saia e sei lá o que mais. Imaginem. 

Amontoamo-nos uns em cima dos outros para obter o melhor ângulo fotográfico.   

Depois de me cansar de fotografar, dirijo-me ao estádio Panathenaic, berço dos primeiros jogos olímpicos da era moderna, em 1896. Mais uma vez demoro com as fotografias. Fotografia no pódio (em primeiro, claro); fotografia na tribuna de 1896; fotografia na pista da maratona; fotografia deitado, sentado, em pose atlética; enfim, tanta fotografia que deixei cair a máquina fotográfica em cima do frio e duro mármore que já foi branco. Funciona, apesar de se ter aberto (não danificado, espero). O mais curioso é que tirou uma foto quando caiu (em baixo, uma obra de arte).   Envio uma foto para os meus amigos maratonistas Jonhy Orange, Mary Fátima e Melany Mull. Quem corre maratonas tem de fazer o percurso original, desde a aldeia de Marathona até a este estádio. 

Glória aos que conseguem. Eu não. Para já. Talvez consiga quando os gregos tiverem um superávite orçamental.
Fico a saber que os +*#$¥^& dos pombos gregos são inteligentes. Estou a almoçar no Zappeion e mal alguém se senta e lhe é servido o aperitivo com frutos secos, os sacanas saem do seu pedestal e aterram na mesa. Quando vêm que não tem hipótese, voam até ao seu poleiro à espera de outra vítima. 

Pago e a menina leva o POS para a rua. Levanta-o e depois diz-me:”Rede fraca.” Não me atrevo a fazer mais perguntas. Next.
Caminho até aos bairros típicos de Plaka e Anafiotoka. Ambos na encosta da acrópole. Digamos que são a Alfama e a Mouraria atenienses. Sem dúvida que os nossos tem mais pinta, mas são igualmente cansativos. Sobe. Desce. Volta a subir. Volta a descer. 
Sento-me na esplanada de um café cujo nome nem sequer consigo identificar no recibo e como uma tarde de maçã e um smothie. O ambiente é bastante cosy. Gosto. Gosto bastante.  

Já percebi que há dois costumes (ou serão obrigações!?) um pouco estranhos:

– quando nos sentamos num café somos imediatamente presenteados com um copo de água (da torneira) grátis.

– sempre que pedimos mais alguma coisa, lá vem um papelinho para um copo específico da mesa. Se pedirmos quatro vezes, temos quatro facturas no copo. No final é só fazer a conta e … pagar. Ah … e não vale antena pedir uma factura única, porque não há.   

Há minha frente estão três belas espécimens gregas com dois mariolas cá do sítio. Estão os cinco em silêncio … e de telemóvel em punho. Isto está a ir por um belo caminho. Penso (enquanto escrevo este texto … no meu).

Atenas, Grécia, 22 de Novembro de 2015
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Hellas

As cidades não me impressionam. Vou fazer um esforço, já que sou “obrigado” a ficar em Atenas durante uns dias. Blasfemo, dirão alguns.

Atenas não é uma cidade qualquer. É o berço de uma enorme lista de coisas, incluindo da democracia. Mas é melhor nem me alongar neste tema.   

Para a acrópole.“, digo ao taxista. Talvez consiga entrar antes de fechar. Chego. A tempo. Pago os 12 euros com o seguinte aviso: “Tem 20 minutos. Depois fechamos.”

  Vim a correr de Tirana, na Albânia. Fui a correr do aeroporto para o hotel. Depois do hotel para a acrópole. E agora este grego diz-me para me despachar. Pois que espere. Vou demorar o tempo que me apetecer.
A visita à acrópole é uma decepção. Confesso. 

Apenas aproveito a fantástica vista de 360 graus para esta gigantesca cidade. Todos os monumentos estão em ruínas e, muitos deles, nem sequer existem. Temos de os imaginar. São obviamente excepção o Parthenon, que está sempre em obras (quais obras de Santa Engrácia), o Teatro de Dionysios e o Anfiteatro de Herodes. Tudo o resto não existe. É imaginado. Passo. Next.  

  
Saio da acrópole convencido de que vista de longe será muito mais interessante. Sigo para o monte Filopappou. A meio caminho encontro a Prisão de Sócrates. Só pode ser uma miragem. Mas não é. Eu até pagava para o nosso Zé ficar ali uns aninhos.

  Subo por um carreiro numa zona arborizada e, com a certeza de que a transpiração que me desce pela testa vai valer a pena, dirijo-me a um ponto onde conseguirei ver a acrópole. Confirma-se. Linda. Mágica. 

Ajudo um grupo de polacas, que estão por aqui numa despedida de solteira, e tiro-lhes algumas fotos em pose. Parecem um grupo de sereias sentadas num rochedo com a acrópole ao fundo. Belas … fotos. O cenário e as modelos ajudam. Fico invejoso e peço a uma delas para me tirar fotos parecidas, seguindo as minhas indicações. Pena é terem ficado todas horribilis. Estou habituado. Creio que me vou ter de render ao stick.

  Sento-me e demoro o tempo necessário para apreciar a panorâmica urbana, o mar e a acrópole. 

O meu telemóvel morreu. Fiquei desligado do mundo e das selfies ao meu gosto. Cada vez mais acho que o carregador e o wi-fi deviam estar na base da pirâmide de Maslow. Ao que isto chegou. 
Desço a Avenida Apóstolo Paulo. O local onde se vendem todo o tipo de bugigangas, artesanato e lembranças. Anoitece. 
  Dou uma vista de olhos ao mapa que saquei da net e que aconselha um percurso pedestre de um dia. Hoje fiz 1/3. Talvez o mais interessante. Amanhã faço o resto. 

Janto no Hard Rock Athens. Por coincidência, hoje há três clássicos que me interessam: Benfica-Sporting (Portugal); Real-Barça (Espanha); e, Olympiacos-Panatynaicos (Grécia). Seja o que os Deuses do Olimpo quiserem. Mas não auguro nada de bom.

O meu dia vai longo. Não resisto em voltar ao monte Filopappou, onde tirei as melhores fotografias da acrópole. Problemas: fica no topo de um monte coberto de vegetação do meu tamanho, não tem iluminação, nem segurança, nem placas indicativas. Isto é: não vou conseguir ver o caminho e não é nada seguro. Entro no negrume da vegetação.

  Subo com a ajuda da lua, de todos os Santos e com os sentidos em alerta. Este é o local mais do que perfeito para assaltar turistas durante a noite. Por isso mesmo não anda por aqui ninguém. Estou só. 

Valeu a pena. A vista é mágica. Perigosa. 

Este é o 33 país que visito.

Atenas, Grécia, 21 de Novembro de 2015

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Tirana!

Tirana é um lugar 

Quem sabe?Difícil de encontrar 

E tirar à sorte e dar

Avançar retirar“…

GNR – Grupo Nacional de Rock, 1992, tinha eu 16 anos.

Não foi difícil de encontrar, mas demorei para aqui chegar. Lisboa e Tirana ficam nos extremos da Europa. Com tudo o que isso tem de bom e de mau. Eu creio que estar longe é bastante mais vantajoso.  

Saí de casa ao meio-dia e só cheguei ao hotel à uma da manhã do dia seguinte. 

  
Escala no aeroporto de Fiumicino, em Roma, que será, certamente, o pior aeroporto civilizado por onde passei. Estive uma hora no terminal C (a pensar que estava no H); embarque desordenado tipo “ovelhas para o matadouro”; viagens e mais viagens de autocarro (ganha ao da Portela aos pontos), com condução à la italiana; apesar de irmos de autocarro, subimos para uma rampa para entrar no avião (nunca tinha visto tal coisa); todo o terminal H tinha apenas duas míseras bancas com sandes e sumos (nem piza, nem pasta – que seria o mínimo exigido em Itália). Enfim, só gostei das casas de banho. Mas não vou dizer porquê. 

Vou visitar o meu 33 país do “mundo mundial”. E arredores. O meu objectivo de manter a minha idade a par do número de países visitados está quase alcançado. No próximo ano a diferença será de apenas 4 países. Hoje é de 6. Contudo, este objectivo exige manutenção anual, pelo menos, até aos 100 anos. E esta manutenção não é nada barata. Nem se pode fazer numa oficina amiga de um amigo.  

Vou estar dois dias (em trabalho para a Vodafone) na cidade capital da Albânia – Tirana. Terei de investigar um pouco sobre a origem do nome e do próprio país. Confesso que esta área do globo é um pouco (muito) desconhecida para mim. Sofreu bastantes alterações com o Império Otomano, Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Uma manta de retalhos.

Do avião vejo uma casa ali e outra acolá. É quase meia-noite e o taxista move-se livremente pela cidade. Mesmo assim, conduz com muito cuidado. Uma alma aqui e outra acolá. A primeira percepção é bastante positiva. Não é uma cidade cosmopolita (nem eu esperava isso) mas é ordenada, com arquitectura simples, segura, com áreas de serviços e comerciais, espaços verdes, … eu diria, equivalente a uma cidade média europeia. 

É uma da manhã. Estou num táxi a caminho do hotel. Já tirei todas as conclusões acerca da cidade. Rápido. 

 
O centro possui alguns edifícios de grandes dimensões que, aliados a grandes praças e alamedas, nos fazem lembrar as áreas e estruturas soviéticas. Amanhã, verei toda esta área central com pessoas e carros. Aí talvez a minha percepção mude. Mas não me parece.

Chego ao hotel Sheraton. Morto de cansaço. Durmo.

Tirana, Albania, 18 de Novembro de 2015

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Viajar: os meus porquês

Porque viajas sozinho?

Porque gostas de viajar? 

Porque ficas em B&B?

 

Simples:

1: Mal. O melhor que nos pode acontecer é que algumas coisas corram mal. Ficamos com histórias fantásticas para contar. E se correrem mesmo muito mal, podemos sempre regressar (bem, nem sempre). Ninguém se lembra do que correu espetacularmente bem. Farto-me de rir sempre que me recordo quando nos pusemos a caminho, a pé, em plenas dunas de Merzouga debaixo de um sol escaldante. Inconscientes. Correu bem. Não vou esquecer.

  

2: Valor.
Quando vemos e vivemos outras realidades, damos muito mais valor à nossa e àquilo que temos. Dar um simples balão a uma criança Vietnamita e ver a sua esfuziante reacção faz-nos pensar porque precisamos de um iWatch. Comprar um saco de rebuçados por uns ridículos 0,50 eur e distribui-lo por um grupo de crianças numa aldeia no meio do nada, fez-me mais feliz do que qualquer festa de aniversário. 

 

3: Só.
Viajar sozinho é melhor do que não viajar e, muitas vezes, melhor do que ir acompanhado. Já tive as duas experiências e não tenho dúvidas. Não há melhor maneira de encontrar o nosso eu. Além disso, é um luxo fazer do nosso tempo o que quisermos. Não ouvir: não me apetece; eu bem te avisei (esta é de ir aos Céus); mas porquê para aí; esta comida vai fazer-me mal; este hostel é uma porcaria; recuso-me a beber água do rio; …, é um acto de egoísmo de que eu gosto. Muito.

  

4: Milhões.
Andam milhões de pessoas a viajar pelo mundo fora. Somos apenas mais um. Nunca estamos sós. Viajar sozinho liberta-nos e fomenta a interacção com os outros. Sempre que viajei sozinho nunca estive só. Conheci pessoas espetaculares (outras nem tanto) de todas as idades e nacionalidades. Não me esqueço de Jake, um australiano que viajava com a esposa, e que me ligou uma semana depois de ter regressado da China a perguntar se eu tinha chegado bem a Lisboa. Ou de Cecile, com quem passei 4 dias no Camboja, antes de cada um de nós ter seguido o nosso caminho. Ou ainda Dino, que ia perdendo o comboio para Tanger quando voltou atrás para procurar Gabor, que se tinha perdido em Fez.

 

5: Nós.
Não há melhor maneira de conheceres outra pessoa do que viajar com ela. Devia ser obrigatório antes da confirmação de qualquer relação. 

  

7: Limites.
Viajar à aventura é uma forma de testar os nossos limites. Ir para um sítio onde é impossível ler e compreender um simples nome de uma rua, como foi o meu caso na China, é uma experiência que nos põe à prova. Subir Fitz Roy e não saber se conseguimos voltar durante o dia levou a minha adrenalina ao máximo. Especialmente por saber que não haveria rede móvel, estava um frio de rachar, o caminho era um monotrilho de terra batida no meio de uma floresta, e, obviamente, não havia iluminação, nem sequer qualquer vestígio de civilização. Mas fui. E voltei.

  

8: Caro.
Viajar pode não ser barato. Contudo, não viajar pode ser mais caro. Eu diria ainda mais: só os idiotas gastam muito dinheiro a viajar. No mínimo, consegui sempre poupar mais de 1/3 do preço de tabela em cada viagem que fiz. Estive uma semana em Marrocos por menos de 400 euros, com tudo, mesmo tudo, incluído. Muito menos de metade do preço do que um pacote normal e com o triplo da aventura. 

9: Impressionar. Falar das nossas viagens é a melhor maneira para impressionar numa entrevista de emprego. É uma forma simples de demonstrar flexibilidade, proactividade, ausência de medo, aventura, … é sempre a última pergunta que faço quando entrevisto alguém. Viaja? Para onde? Como?

 

10: Respeitar.
Não querer/ gostar/ poder viajar é obviamente respeitável e não faz de nós piores pessoas.

  
Dusseldorf, Alemanha, 6 de Novembro de 2015

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