Lisboa das janelas.

Lisboa não é apenas luz. A famosa luz.

Lisboa tem mais … tem mais do que cosmopolitas avenidas, mais do que esplanadas à beira rio plantadas e terraços empoleirados em prédios seculares.   

Lisboa tem mais do que as famosas colinas percorridas por sôfregos turistas e habitadas por Donas Marias e Senhores Manueis, que assam sardinhas e bebem um copo de tinto na véspera do dia 13 de Junh. O dia de todos os lisboetas. Lisboa tem algo único que a caracteriza – as janelas. Sim, as janelas.

No Largo da Severa, um dos mais típicos e tradicionais da cidade, a Dona Maria está a colocar roupa no estendal do alto da sua janela, rodeada por azulejos pintados à mão em tons de azul, verde e amarelo. Os caixilhos, de madeira pintada com tinta que já foi branca, estão gastos pelo abre-e-fecha diário. A Dona Maria sabe que o sol quente de hoje vai secar rapidamente as camisolas interiores brancas, os boxers azuis, a toalha de rosto rendilhada cor-de-laranja e as inúmeras meias pretas. Os estendais de roupa e as janelas lisboetas são a combinação perfeita. 

Um pouco mais à frente, uma enorme janela sacada ganha vida. Literalmente. Todos os vãos estão emparedados. Uma carcaça, portanto. No telhado cresce uma selva quase amazónica, deixando antever um fim trágico do prédio. Na janela sacada do último andar, envolta em pedra maciça corroída pelo tempo, e que hoje já não se usa, cresce uma única sardinheira de flor vermelha. A sua vivacidade e cor destoam num prédio vagabundo e que tem os dias contados, como tantos outros em Lisboa. Demasiados. Esta janela não deixa de ser tão bonita como a da Dona Maria. E é. 

 Mas as janelas de Lisboa não são apenas rodeadas de pedra, azulejos multicolores ou simples tinta cor-de-rosa, amarela ou branca. As janelas de Lisboa protejam-se com requintados gradeamentos de ferro, que hoje já não se fazem. São obras de arte equivalentes à mais bela filigrana e que servem de apoio aos cotovelos do Senhor Manuel, que tranquilamente observa quem passa. Sem pressa. 

Mais acima, na Villa Bertha, uma pequena rua operária criada nos inícios do século XX, as janelas, com uma pequena varanda em pedra e um gradeamento mais simples, são decoradas com floreiras. Mais uma vez, a sardinheira é rainha, mas, desta vez, partilha o espaço com as mais modernas flores de plástico, queimadas pelo sol e que retiram o glamour que esta rua poderia poderia ter.

Mas Lisboa não deixa de ser luz. Luz que entra por todas as janelas da cidade. Sem distinção. 

Sentado no pouco conhecido miradouro da Senhora do Monte, tenho uma vista privilegiada para o Deus Sol, que agora se põe nas janelas de todas as Donas Marias e Senhores Manueis. A roupa vai ser recolhida dos estendais e as flores regadas. As janelas fechar-se-ão para amanhã, bem cedo, se voltarem a abrir. 

Lisboa, Workshop de “Escrita para viagens” por Filipe Morato Gomes, melhor blogger profissional de 2014, 12 de Abril de 2015.

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