M8: Parabéns para todos

Shokran.

شكرا

Hoje é o dia do meu aniversário.

Depois de uma noite muito mal dormida e gelada numa tenda em pleno deserto, não sei se quero repetir a experiência. Regresso à cidade. Decido algures durante a noite, enquanto tentava não pensar no frio.

A madrugada antecipa-se agitada dado que ontem haviam mais pessoas do que camelos e ninguém quer regressar de jipe. O guia chama-nos às 5:30 para regressarmos à cidade e, assim, podermos ver o sol a nascer no deserto. A correria é tal que a gritaria voltou, mas desta vez sem tentativas de agressão. Resultado: eu consegui um camelo. É o que me importa. 



O que me chateia nos marroquinos é que estão constantemente a fazer-nos passar por parvos. Se não tinham camelos para todos, não vendiam todas estas viagens. Mas os dirhams falam mais alto. Claro. O dinheiro. O dinheiro.

Faço o caminho com o meu lenço azul berbere, que me protege do sol e de comer inúteis quilos de areia cor-de-laranja. Sou o único que sabe como o enrolar na cabeça e, por isso, agora sou o colocador oficial de lenços berberes. Tem as suas vantagens. 

Tiro dezenas de fotos, apesar do nascer do sol estar nas minhas costas, o que me obriga constantemente a virar-me para trás e a esforçar a coluna. Que se lixe, mas … a uma hora do destino, o meu rabiosque já não aguenta tal tortura. Não tenho posição para estar sentado e, tenho a certeza, vou ficar com um andar novo. Os dois ferros de suporte da suposta almofada estão cravados no meu corpo. 

Foram duas horas com um misto de suprimento por uma nova técnica de tortura chinesa e de beleza e tranquilidade extraordinárias. 

Confirmo que não quero ir de novo até ao deserto, tal como tinha pensado. Não me apetece passar por todo o stress dos camelos e do frio. Decido regressar à cidade com Dino (espanhol, professor de castelhano e a viver em Tanger), Bianca (bancária, austríaca), Andrea (gestora de marketing, austríaca) e Gabriel (húngaro, consultor e a viver na Alemanha).

Dino já conhece os marroquinos e passa-se cada vez que o tentam enganar. Isto é: todas as vezes. Passou-se de novo ao saber do preço do táxi até à cidade. “Vamos todos a pé! São todos uns filhos da puta. Veem-nos como máquinas multibanco.”, diz. Tem razão. Muita razão. Toda a razão. 

E lá vamos nós, os cinco, numa estrada de areia e a  cerca de 2 km da cidade. Não há nada, rigorosamente nada, em nosso redor. Só areia e o sol escaldante do deserto.

“Vamos até Ergfoud. Dormimos lá e depois vamos até Fez. Alugamos um táxi para os cinco.”, combinamos. Este é o plano. Simples. 

Os marroquinos podem ser aldrabões, mas não são burros. Alguém chamou um táxi ao nosso encontro. Certamente um amigo de alguém que quer ganhar uns trocos. 

Combino a estratégia com Dino: Dino lidera a negociação e eu sou o “polícia mau”. Quando ele nos transmite o preço, eu intervenho e digo que vamos de autocarro, que é muito mais barato (mesmo pensando que, de autocarro, nem morto).

Negociamos um preço razoável até Ergfoud. Somos 5, mais o taxista. Isto é: 6. Num táxi de 5. 

O Mercedes, a cair de velho, talvez mais velho do que eu, aguenta com as malas, 4 passageiros atrás e 2 à frente. Sardinha em lata, portanto. 

Estamos tão confortáveis, que teve que ser a Andrea a despir a camisola do Dino. Eu apenas consigo encostar um ombro no banco do carro. O outro está em cima da Bianca. E, porque temos de mudar de posição do corpo, pedimos ao taxista para parar a cada meia hora, para mudarmos a ordem pela qual estamos sentados. Andrea, tal como nós, acha esta situação tão ridícula que tem ataques de riso, levando-nos todos a rir com ela. Viajar é assim. 

Mudamos de ideias a meio do caminho e negociamos novo preço até à próxima cidade. As negociações são cada vez mais difíceis porque estamos cada vez mais exigentes. Desta vez, o taxista apenas cedeu ao nosso preço quando estávamos fora do taxi, a retirar as nossas malas e a prepararmo-nos para apanhar outro taxi. Eles levam-nos até ao limite.

Vamos até El Rissani. A grande vantagem em não ir de autocarro é que podemos parar quando queremos, incluindo em alguns spots, como foi o magnífico palmeiral do Vale do Ziz. 

Entretanto, paramos de novo porque cheira muito a gasolina. Não é nada. Pensamos nós. 

Em El Rissani, e depois de nova tagine de frango, mudamos novamente de ideias e decidimos continuar até Tibelt. Convencemos Andrea, que não queria ir.

Dino já está pro na arte de negociar e já o faz com muito prazer. Quase que já roça a malícia. Negoceia novo taxi até Tibelt. Novo Mercedes a cair de podre.

Tibelt é uma cidade de passagem e tem pouco para ver. Ficamos num hotel por 5 euros a noite e, surpreendentemente para mim, com água quente e Wi-Fi, mas sem toalhas. 

Vou passar o meu aniversário num hotel de 5 euros. Que melhor podia pedir?! 

Estamos exaustos e ainda são quatro da tarde. Cada troço de taxi durou mais de 3 horas. Estamos fartos de andar de carro,  em posições desconfortáveis mas muito amigas do contacto humano. Decidimos dar uma volta pela cidade e pelo kasbah.

Os miúdos aqui são menos intrusivos e mais ingénuos. 

Decido dar-lhes uma prenda no dia do meu aniversário. Encontro uma loja, que mais parecia uma desmazelada garagem de motas, e compro um saco de rebuçados. Foi a loucura total quando os putos se apercebem. Até a banca da improvisada loja cedeu e quase se estatelava no chão. Grito com eles. Finjo que estou chateado. “Tudo para a rua!”, digo com um misto de espanhol e francês.

Bianca e Dino põem as mãos na cabeça, como que a dizer: “Onde tu te foste meter. Vão comer-te vivo!” Eu sei. Mas hoje é o meu dia de aniversário, apesar de ninguém saber. 

Peço a Dino, que está habituado a lidar com os miúdos na sua escola em Tanger, para ordenar numa fila os mais de 30 que se juntam à entrada da loja. E cada vez chegam mais. Estas notícias correm rápido.

Distribuo, ou tento distribuir, irmãmente por todos, mas a parte final é de tal maneira descontrolada que já me querem tirar o casaco e encostam-me contra a parede. O saco acaba por se romper e os rebuçados espalham-se pelo chão. Desaparecem todos num ápice.

E foi assim o dia do meu aniversário. Um dia para não esquecer. 

Parabéns a todos. Parabéns a mim.

Midelt, 7 de Março de 2015 – o meu 39 ano.

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