M7: Operação Desert Storm

Allah

الله

Nem sei como começar esta crónica … este dia mudou o rumo da minha viagem. 

O dia começou com uma visita às gargantas de Todra, depois de uma noite mal dormida num albergue na montanha. O húngaro que dormiu no meu quarto não sabe que já foram inventados desodorizantes para os pés e também não queria deixar as botas na rua. Turista sofre.

Mas até aqui tudo normal.



No início do percurso pedestre pelos quintais do vale, tudo o que é criançada vem ao nosso encontro. Distribuo um pacote inteiro de pastilhas e uma barra de cereais. A loucura é tal, que os putos passam a palavra uns aos outros. 10 Minutos passados e tenho mais do dobro junto de mim. Não há para todos.

Mas até aqui tudo normal.



Compro um lenço berbere azul pelo dobro preço habitual. Mais cêntimo, menos cêntimo. Que se lixe. Hoje não me apetece regatear muito. O vendedor ensina-me a enrolar o lenço, mas, pelo sim pelo não, filmo o processo para não me esquecer. Estou a pensar levá-lo na próxima semana para o trabalho.

Mas até aqui tudo normal.

Paramos para comprar bebidas alcoólicas … às escondidas, num canto recôndito de um hotel. A vodka custava 100 eur.  Apenas levamos vinho e cerveja. Temos todos os ingredientes para a festarola de logo à noite, na tenda, em pleno deserto.

A partir deste momento começa a verdadeira operação operação desert storm. Uma história das arábias. 

– Chegamos tarde, pelo que só metade do grupo pode ir de camelo para o acampamento. Já não há camelos para todos.

– Fiquei com seis pessoas à espera de supostos camelos que todos sabíamos que nunca iam chegar. 

Perdemos o por-do-sol. Cesar, António e Nino passaram-se dos carretos e decidem ir a pé. Cansam-se (claro) e ficam sentados a umas centenas metros de mim e de Mohamed, o dono da agência que nos preparou o percurso no deserto. (aqui todos se chamam Mohamed ou Mustafa, mesmo que não seja esse o seu verdadeiro nome)

– Digo a Mahomed de forma educada, mas ríspida, que todos pagamos para ir de camelo e para ver o pôr do sol. Não vamos ter nem uma coisa nem outra. A alternativa era irmos de jipe, o que uns recusaram e outros aceitaram. Continuamos a acesa discussão apenas comigo e em espanhol. De qualquer maneira, já perdemos duas das actuações principais.

– Mohamed vai buscar o seu jipe 4×4 e alguns de nós subimos para cima dele. Entretanto o Dino e o Cesar envolvem-se numa muito feia discussão com Mohamed e quase chegam a vias de facto. Desço do jipe e meto-me entre os dois para acalmar os ânimos (exactamente tipo filme). Depois de muita discussão (com ameaças de polícia pelo meio – já me está a ver numa prisão marroquina), e já de noite escura, fomos todos no tejadilho do jipe até ao acampamento berbere, no deserto de Erg Chebbi. O motorista quer assustarmos e conduz como um louco, em plenas dunas, de noite, com o tejadilho do carro coberto de turistas (que entretanto comiam quilos de areia. A areia do deserto sabe a … galinha).

– Chegamos e, numa tenda, jantamos uma tagine. Já estou a enjoar. Contudo, além de não haver pratos (os berberes comem com as mãos) também não há copos. As garrafas de vinho rodam e são bebidas pelo gargalo. Podia dizer que também não há Wi-Fi, mas creio que no deserto é uma coisa bastante habitual. Já com a paciência para aturar estes aldrabões nos limites (já tínhamos perguntado se haviam copos e foi-nos dito que sim), decidimos não nos chatear e gozar o momento.



– Juntamo-nos em redor da fogueira enquanto ouvimos cantares berberes e flauta do nosso amigo pedrado escocês, que toca melhor cada vez que reabastece. E está agora a tocar bem. Até os berberes estão fãs.



– Mas os meus problemas ainda nem começaram. Cheguei com um: vou passar (pensava eu) mais um dia no deserto e como durante o dia não há ninguém, vou ter de ir para Merzouga de novo e depois regressar. E vou sair com três: a viagem de Merzouga para Fez custa 120 euros (um roubo mais do que descarado); e ainda não sei se me apetece vir para o deserto amanhã. 



Como diria Mustafa: “Amanhã é outro dia. Relaxa, senão morres cedo.”

– Nino, Sofia, 2 brasileiras e eu decidimos subir a maior duma de Erg Chebbi a pé e já de noite escura. E vamos.

As duas brasucas desistem a 1/3 do caminho, tal é o esforço que é necessário fazer. Eu desisto a 2/3 depois de grande parte do percurso ter sido feito “à macaco”. 

Eles continuam. Paro e deito-me ao luar para descansar e pensar na vida. O silêncio é ensurdecedor. A vista fenomenal, porque está lua cheia. Estou deitado num ponto onde só vejo areia sem fim, apenas protegido pelas estrelas e pela magnífica lua. Brutal.

– Regresso à minha tenda e preparo-me para dormir (esperava eu). Faz um frio de rachar, pelo que me enrolo em todas as mantas que consigo. A fina areia cor-de-laranja entranha-se em tudo quanto é sitio. Nas mantas, no corpo. Durmo uma ou duas horas. Não chega, mas foi o que se conseguiu. 

Amanhã estarei aqui de novo, ou talvez não.

Deserto de Erg Chebbi, 6 de Março de 2015

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