El Escorial

Estou sentado num comboio a caminho de San Lorenzo del Escorial.

Creio (ou tenho mesmo a certeza) de que já viajei mais de comboio e metro em Madrid nestes quase dois anos, do que em toda a minha vida em Portugal. Já dormi mais noites em hotéis do que na minha própria casa em Lisboa. Já fiz mais viagens de avião do que no meu próprio carro. Triste, mas como diria um amigo: “Fica contente enquanto for alguém a pagar tudo isso. Imagina se tivesses de ser tu.” Tem razão.

A pobreza, o desespero e até mesmo os profissionais da pedinchasse estão por todo o lado. Desde que saí do hotel até à estação de Chamartí vi de tudo: um senhor só com um dedo numa das mãos a implorar que olhássemos para ele; um velhote com um fato preto sujo e roto, que apenas dizia “Ayuda, Ayuda.”; os tradicionais tocadores-de-qualquer-coisa que entram dentro da carruagem e tocam alguns acordes de-um-qualquer-êxito; e ainda a senhora que, sem incomodar ou dizer qualquer palavra, nos deixa um baralho de cartas com um papel manuscrito a apelar aos nossos valores católicos para ajudar a sua família. Custa não ajudar alguma desta gente, mas fazê-lo, será apenas para perpetuar o seu modo de vida.

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No autocarro público que nos leva da estação de San Lorenzo, Cristina, uma espanhola de Vallalolid pergunta-me:
Ela: “Este autocarro vai para o Valle de los Caídos?”
Eu: “Não sei. Não sou daqui.”

Ao meu lado um senhor de idade, com a ponta do nariz vermelha e cabelo branco coberto de gel, pergunta ao motorista:
Ele: “Como se vai para o Valle de los Caídos?”

Eu, a pensar: “Bom, tenho de saber o que raio se passa no Vale dos Caídos! Era suposto que a atracção principal desta cidade fosse o Mosteiro do Escorial!”

Saco do telemóvel e visito o Tripadvisor:
VALLE DE LOS CAÍDOS: “Basílica mandada construir por Franco e onde está sepultado.”
Está explicado. Apesar de nunca ter visitado Santa Comba Dão, vou a este vale …. se me conseguir despachar a tempo do Mosteiro.

A fila para entrar no Escorial deve ter uns 700 metros, são 12:24, ainda não almocei e está um frio de rachar – já não sinto os dedos nem o nariz. Vou ter de aguentar, rezando para que nenhuma úlcera estomacal ou pneumonia se lembrem de me visitar.

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O mosteiro vale principalmente por três atracções: a casa dos Bourbons, pelas tapeçarias; a cripta, das mais bonitas que já vi e onde também repousa sangue português; e, uma enorme parede pintada com as principais batalhas ganhas até então, e onde constam duas com Portugal (não consegui perceber quais). De resto, trata-se de um gigantesco palácio e mosteiro iniciado pelo Rei Filipe II (Primeiro de Portugal) e pela sua primeira mulher, Maria Manuela de Portugal, que, na cripta real, repousa à sua frente (ao contrário daquelas que se lhe seguiram).

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Faltam 15 minutos para as 15 e começo a stressar porque o autocarro até ao Valle de los Caídos parte às 15:15… e ainda nem almocei.
Ao longe, já vejo a colossal cruz que se eleva no topo da montanha em direcção ao vale coberto de pinheiros. Uma paisagem mpressionante.

Começou a nevar.

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Não sei bem como descrever o Vale dos Caídos.
A igreja, elevada a basílica pelo Papa João XXII, exactamente 16 anos e um mês antes de eu nascer, tem tanto de belo como de sinistro. Talvez seja das mais interessantes que já vi, não pelo seu conteúdo, mas pela sua arquitectura austera, em pedra escura, com estátuas gigantescas de olhar frio, esculpidas em pedra ou fundidas em ferro, e …. sem janelas. Trata-se de um gigantesco “túnel” escavado na rocha. Eu diria mesmo, um gigantesco bunker.

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A fachada da entrada (a única parte exterior visível) mais me faz lembrar um enorme monumento nazi ou soviético, que esconde uma inimaginável grandeza no seu interior.
Há quem diga que o verdadeiro motivo desta construção, não foi a homenagem aos caídos na guerra civil espanhola, mas sim o megalómano desejo do Generalíssimo Franco em ter um local para eternamente descansar o seu gigante ego.
E tem-no. Coberto por uma lápide rasa de granito que apenas diz “Francisco Franco”. Está no altar-mor.

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Este local foi a surpresa do dia. Saio daqui com um sentimento estranho.
Algo não bate certo.

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Corro, novamente em direcção ao comboio que me levará a Chamartí e, surpreendentemente, encontro novamente Cristina.
Ela: “Gostaste do Escorial?”
Eu: “Sim. Este mosteiro foi mandado erigir por um Rei que também reinou em Portugal.”
Ela: “Os portugueses são muito educados.”

E por aqui me fico.

San Lorenzo del Escorial, 7 de Dezembro de 2014

Mais fotos no meu blog Wanna travel with me? | Histórias de um gajo a viajar em:
https://ruiiscalling.wordpress.com/

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